RUE


Entrevista RUE ao Militante Socialista
Abril 9, 2009, 12:09 am
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Em resposta ao desafio lançado pelo Militante Socialista (jornal oficial do POUS), Paula Montez, membro da RUE, procurou responder às seguintes perguntas:

– Qual consideras que deve ser o objectivo da RUE em participar nestas eleições?

– Como é que essa participação pode constituir um ponto de apoio para a construção da RUE, a nível nacional, bem como para a ligação com os movimentos que – nos outros países da Europa – combatem pela ruptura com a União Europeia?


paula-bi

A RUE – Comissão Nacional Ruptura com a União Europeia – surgiu do encontro de vontades entre militantes do POUS e cidadãos de vários quadrantes político-partidários, os quais constataram ter em comum o entendimento de que a União Europeia está na origem de muitos dos males que inviabilizam o desenvolvimento consequente do nosso país. Cidadãos que se uniram, conscientes de que muitas das directivas emanadas das instituições da União Europeia têm destruído metodicamente o sector produtivo, sobrepondo-se às leis nacionais, tornando o nosso país cada vez mais dependente e inviável.

Desde o momento da formação desta Comissão, a 13 de Setembro de 2008, vários têm sido os debates que temos realizado em conjunto, com a finalidade de discutir a situação actual do nosso país, mas também a contextualização mundial e a análise do percurso histórico que nos conduziu à situação em que hoje nos encontramos. As conclusões não podiam ser outras: a União Europeia e as suas instituições, bem como a sua história, estão – e sempre estiveram – indiscutivelmente ao serviço dos interesses da alta finança e das multinacionais. A chegada dos dinheiros e dos subsídios europeus, concedidos a pretexto de desenvolver o país, gerou numa primeira fase uma euforia colectiva, na medida em que a população, saída de 48 anos de isolamento e de ditadura, era levada a acreditar que finalmente ia ter a oportunidade de alcançar os mesmos direitos que os europeus. No entanto, logo desde a integração na CEE, Mário Soares jamais considerou a hipótese de referendar um passo tão importante como esse, nunca os portugueses foram informados sobre a factura que haviam de ter que pagar pelos fundos europeus, nem essa ilusória euforia alguma vez foi ponderada ou colocada em causa pelas forças políticas institucionais. Como noutras alturas da História, os dinheiros chegaram e desapareceram, usados mais para criar condições a que os países europeus colocassem cá mais facilmente as suas mercadorias (construção de auto-estradas, centros comerciais, hipermercados, etc.) do que propriamente a desenvolver os sectores produtivos. Pelo contrário, muitos desses subsídios foram pagos com a estratégia de desmantelar a nossa agricultura, a nossa frota pesqueira, as fábricas, a produção nacional e, mais recentemente, a destruição dos serviços públicos, com vista a favorecer a sua privatização. Essa situação, aliada aos ideais económicos do neo-liberalismo, à livre concorrência selvagem, à desregulamentação, à ausência de fiscalização e ao facilitismo na obtenção de crédito, foi ao longo das últimas décadas arrastando o país para a situação deplorável em que hoje se encontra.

O mesmo se passou com a quebra da promessa do actual Governo de referendar o Tratado de Lisboa, um tratado que – tal como os anteriores tratados europeus – em nada favorece o nosso país, limitando a nossa soberania e os poderes das instituições nacionais. Exemplo gritante da subversão das próprias regras criadas pelas instituições europeias é o caso do “Não” irlandês ao Tratado de Lisboa, o qual as instituições da UE procuram agora contornar, com a realização de um segundo referendo, pressionando ao mais alto nível os governantes irlandeses a obter o resultado pretendido. Por isso, uma das acções da RUE foi, e continuará a ser, apoiar as iniciativas que ajudem o povo irlandês a reafirmar o seu “Não” claro ao Tratado de Lisboa.

Com o agravamento da crise – que não é nova, apenas mais aguda em resultado do desvario predador que está na natureza do capitalismo, não olhando a meios para atingir os fins – torna-se ainda mais urgente afirmar a ruptura com a União Europeia como a única saída para inverter este processo. Pressionar o Governo a proibir os despedimentos é neste momento a grande prioridade da RUE. Bem como exigir que os apoios dados ao sector bancário e as facilidades concedidas aos grandes empresários sejam, pelo contrário, usados em suporte à grave crise que atravessa o sector produtivo. Mais, acreditamos que um Governo que continue a permitir o desmantelamento da produção e o despedimento massivo dos trabalhadores só poderá agravar a crise e tornar o nosso país completamente vulnerável, ou até mesmo inviável, sem produção e sem poder de compra.

Por isso se torna tão urgente lançar o alerta, aproveitando um momento em que todas as forças políticas – e a Comunicação social a seu favor – estarão sintonizadas a fazer campanha a favor das instituições europeias, algumas delas procurando levar as pessoas a acreditar que é possível mudá-las por dentro. Por isso foi para nós tão importante poder contar com o apoio de uma força política, o POUS, que decidiu colocar  à disposição da RUE a sua legalidade jurídica enquanto partido político, com vistas à participação conjunta nas eleições para o Parlamento Europeu. Desta forma, torna-se viável realizar uma campanha não com vistas à eleição mas sim ao esclarecimento dos portugueses. Afinal o povo português nunca foi verdadeiramente informado sobre a União Europeia e esta é uma oportunidade de trazer o debate para a rua, de realizar o balanço do que a UE trouxe de bom ou de mau ao país.

Através dos contactos com militantes do POUS – que se determinam pela IVª Internacional e que são simultaneamente membros da RUE – temos consciência que não somos os únicos na Europa a reclamar uma união solidária e verdadeiramente cooperante, uma união livre de nações soberanas que possam gerir os seus recursos de uma forma racional, e a desejar romper com um projecto europeu de uma “nova ordem” que apenas visa incrementar as desigualdades e a competitividade irracional entre os países. Por isso a RUE se fez representar na Conferência Operária Europeia, realizada em Fevereiro em Paris, subscrevendo e propondo-se realizar – em conjunto com representantes de outros países – uma série de acções coordenadas que procurem encontrar saídas positivas e construtivas, no quadro da ruptura com a União Europeia e da reconstrução das nações europeias, livres, produtivas, cooperantes e solidárias.

Paula Montez

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